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13/09/2018
Bezerreiros coletivos: quando e por que utilizar?

Ao longo dos anos a criação de bezerras leiteiras vem se adaptando às necessidades produtivas e sanitárias dos diferentes sistemas de produção. A separação do bezerro da mãe logo após o nascimento é uma das práticas mais frequentes entre os produtores, pois assegura maior eficiência na colostragem. Logo após essa separação, muitos animais iniciam uma jornada individualizada, alternativa que diminui a transmissão de doenças com transmissão horizontal (oral/fecal ou por contato) e a competição por alimento entre eles. Já em outras propriedades, alguns produtores optam por criar os animais em grupos desde o nascimento, principalmente pela maior facilidade de alimentação, mas favorecendo assim a interação social.

O número de pesquisas que buscam entender o comportamento animal dos ruminantes e suas preferências vem crescendo ao longo dos anos. Já é conhecido que os animais, tanto jovens como adultos, se beneficiam de interações sociais em grupos. Alguns estudos associam esse fator a um maior bem-estar animal, o que resulta em benefícios produtivos (Tabela 1) ou comportamentais que possam também afetar desempenho ou simplesmente facilitar o manejo (Tabela 2).

Tabela 1. Efeito do agrupamento de bezerros no desempenho. Adaptado de Costa et al., 2016.

Tabela 2. Efeitos do agrupamento no comportamento de bezerros. Adaptado de Costa et al., 2016.

Em um dos primeiros estudos sobre o tema, Warnick et al. (1977) observaram trinta e seis bezerros Holandeses durante quatro meses para determinar os efeitos de três tipos de criações: em grupo, individual ou isolados (Tabela 3). Através dessa pesquisa, os autores relataram que bezerros criados em grupos apresentaram maior ganho de peso após o desaleitamento em comparação com bezerros criados isoladamente. Os bezerros criados em grupos, iniciaram o consumo de concentrado antes que os animais dos outros dois tratamentos, mas o consumo total de concentrado não foi diferente entre os tratamentos.  Animais criados em grupo também tendem a apresentar maior escore no ranking de hierarquia social, principalmente após o desaleitamento, característica que pode influenciar diretamente no maior ganho de peso, já que a disputa hierárquica entre os animais afeta diretamente o consumo.

Tabela 3. Efeitos de diferentes sistemas de alojamento no desempenho de bezerros. Adaptado de Warnick et al. 1977.

Em sistemas comerciais a maioria dos bezerros é criada em instalações individuais, prática essa que pode interferir no seu comportamento. A capacidade de aprendizado pode ser estimulada por interações sociais que ocorrem entre a mãe, outros bezerros ou animais mais velhos.  No trabalho realizado por De Paula Vieira et al. (2012) foi avaliado se bezerros criados com animais mais velhos iniciaram o consumo da dieta sólida mais cedo e apresentaram maiores taxas de crescimento, durante e após o período de desaleitamento. Quarenta e cinco bezerros foram dispostos em diferentes grupos: com três bezerros jovens ou dois bezerros jovens e um bezerro mais velho já desaleitado. Animais criados na presença de um animal mais velho consumiram mais feno e tiveram maior ganho de peso antes e após o desaleitamento em comparação aos bezerros criados com animais da mesma idade. O consumo de concentrado não apresentou diferença entre os tratamentos antes do desaleitamento, mas animais criados na presença de um animal mais velho, visitaram mais vezes e gastaram mais tempo no alimentador automático. Os autores concluíram que criar bezerros jovens na presença de animais mais velhos, estimula o comportamento alimentar e favorece o crescimento após o desaleitamento. É importante salientar que estes resultados só são possíveis por que não existe restrição de recursos como alimento, água, cama ou sombra.

A pressão social para adoção de métodos de criação em que seja possível manejar os animais de forma que eles possam expressar suas características naturais e demonstrar seus próprios comportamentos é cada vez maior. Embora no Brasil em torno de 50% dos animais leiteiros sejam alojados de forma individualizada, isso está longe de poder ser considerado isolamento social. Além disso, os autores Chua et al. (2002) mostraram que a porcentagem média de tempo que os animais ficam engajados realizando contato social com outro animal é de apenas 2% do seu tempo diário (Tabela 4).

Tabela 4.  Porcentagem média de tempo de engajamento nos comportamentos avaliados semanalmente durante 24h. Adaptado de Chua et al. (2002).

Outra preocupação que surge ao manejar bezerros em grupos é a ocorrência de mamadas cruzadas. Essa atividade demanda um alto gasto energético do animal, energia que poderia ser gasta se alimentando, ruminando, brincando ou descansando. Dessa forma, é uma ocorrência indesejada que afeta a produção leiteira, pois altera o desempenho do animal que sofre a mamada cruzada. Além disso, em sistemas onde este comportamento é frequente se observa maior ocorrência de traumas na orelha e umbigo, além de perda de tetos, comprometendo a produção futura.

A preocupação com a disseminação de doenças através do contato ainda é o principal motivo que faz os produtores escolherem criar os bezerros de forma individualizada durante a fase de aleitamento. Doenças como, por exemplo, a diarreia, que afeta boa parte dos animais em aleitamento e é a principal causa de morte de bezerros, tem transmissão do tipo oral-fecal, mecanismo que pode ser agravado na presença de um maior número de animais agrupados. Os efeitos da criação coletiva na sanidade dos animais ainda não está claro, mas muitos trabalhos mostram maior ocorrência de doenças, principalmente quando existe um animal no lote com histórico da doença (Tabela 5).

Tabela 5. Efeito da composição do grupo na incidência de doenças respiratórias em bezerros. Adaptado de Bach et al. (2011).

O número de bezerros no lote também é um dos fatores que afeta diretamente a saúde dos animais e seu desenvolvimento, principalmente pela rápida disseminação de doenças, mas também por maior competição por recursos. Dessa forma, o tamanho do grupo deve ser considerado pelo produtor ao adotar o sistema de criação coletiva.

Um estudo realizado na Suécia avaliou a saúde de animais de diferentes rebanhos, agrupados em lotes de 8 ou 16 animais. Os autores puderam concluir que, bezerros criados em grupos maiores tiveram maior incidência de doenças e através de uma perspectiva de crescimento e saúde, é preferível agrupar os bezerros em conjuntos com menos de dez animais (Svensson e Liberg, 2006). Por outro lado, é importante ressaltar que a variação entre as % de ocorrência foi bastante grande, sugerindo que existe um forte efeito do rebanho que pode estar associado a manejo alimentar, ambiente e treinamento do colaborador.

Tabela 6. Efeito do tamanho do lote na saúde de bezerros. Adaptado de Svensson e Liberg (2006).

O desenvolvimento de sistemas de aleitamento automático tem estimulado muitos produtores a adotar o sistema de criação coletiva. Este sistema facilita o fornecimento de dieta líquida para os animais, permitindo não só o controle individual como também o fornecimento de maiores volumes e comportamento mais natural de mamada (várias refeições por dia). Como os bezerros são em sua maioria separados da mãe ao nascer, os primeiros dias recebem cuidados individualizados através do tratador, mas logo são colocados em grupos e se alimentam através do aleitador automático.

Essa prática é adotada principalmente em grandes produções, onde exige muita mão de obra e é necessário otimizar o tempo. No entanto, existe um período de adaptação para esses animais agora introduzidos em uma vida social. Hierarquia e competição são fatores que afetam os bezerros não só na hora de socializar, mas também na sua eficiência em se alimentar. O tempo que cada bezerro leva para aprender a utilizar o aleitador automático e para se adaptar a ele é diferente para cada animal.

Atrasos no processo de adaptação podem resultar em menores quantidades de leite ingeridas durante a primeira e segunda semana. Os autores Fujiwara et al. (2014) sugerem que animais jovens levam mais tempo para se adaptar as condições de criação em grupos utilizando aleitadores automáticos, em comparação a animais mais velhos. No entanto, de acordo com a pesquisa, muitos bezerros com seis dias de vida se adaptam rapidamente às novas condições de agrupamento, especialmente aqueles que apresentam alto vigor após o nascimento.

A dúvida sobre qual alternativa é melhor ainda persiste, mas novos estudos surgem a cada dia para tentar esclarecer os prós e contras dos diferentes sistemas. É necessário ressaltar que o sucesso da criação não depende apenas da escolha do alojamento dos animais, e sim do manejo adequado das bezerras de acordo com as condições de cada local e principalmente do treinamento do colaborador.

FONTE: MILKPOINT

AUTOR: 

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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